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Sinais do Corpo · Ciclismo

O que o intestino tem a ver com uma queda?

Uma pergunta de pesquisador sobre o eixo intestino-cérebro, as decisões de um atleta a 70 km/h e o que já dá para ver antes do sintoma.

Por Pedro Balikian Jr.·05 de setembro de 2026·6 min de leitura
O que o intestino tem a ver com uma queda?

Ontem eu escrevi que não dá para explicar a queda de Tadej Pogačar na oitava etapa da Vuelta. Continuo dizendo. Mas há uma pergunta que eu carrego desde o Tour de France, e que a Vuelta tornou mais urgente.

O que aconteceu no Tour

Na terceira semana do Tour, um vírus intestinal entrou na equipe dele. Três dos oito companheiros adoeceram: um abandonou a 18ª etapa a pouco mais de 20 quilômetros da chegada, outro escapou do corte de tempo por dois minutos, o terceiro corria vomitando. Naquele mesmo dia, subindo para Orcières-Merlette, Pogačar apareceu de camisa amarela e bretelle preto, pela primeira vez como líder do Tour desde 2022. O pelotão brincou na hora sobre o motivo. A equipe disse oficialmente que ele estava bem, e ele venceu o Tour dias depois.

Eu não sei se ele estava doente. Ninguém sabe, além dele. E não é essa a pergunta.

A pergunta

A pergunta é esta: quanto o intestino pesa nas decisões de um atleta?

Não é filosofia. É anatomia. O intestino tem o seu próprio sistema nervoso, com centenas de milhões de neurônios, e conversa com o cérebro o tempo todo, pelo nervo vago e por moléculas que entram na circulação. A ciência chama isso de eixo intestino-cérebro.

Quando a flora intestinal está desequilibrada, o que chamamos de disbiose, ou quando a barreira intestinal cede sob calor e esforço prolongado, o que sobe para o cérebro muda. Mais sinais de inflamação. Menos dos neurotransmissores que regulam atenção, humor e a sensação de energia. Boa parte da serotonina do corpo, por exemplo, é produzida no intestino.

O que se sabe

Em estudos com pessoas comuns e com atletas, inflamação de origem intestinal está associada a tempo de reação mais lento, a pior tomada de decisão sob pressão e a mais erros em tarefas que exigem atenção sustentada. Não é um efeito dramático. É um efeito pequeno, constante, e invisível para quem está sentindo.

Agora coloque isso num sprint final. Ombro a ombro, milímetros de outro ciclista, mais de 70 km/h, uma decisão a cada meio segundo. Ou numa etapa “morna”, onde a atenção relaxa e uma pedra no asfalto aparece.

Eu não sei se foi isso. Ninguém sabe. O que eu sei é que a pergunta é legítima, e que a ciência ainda não a respondeu com a atenção que ela merece.

O que já dá para ver

Há uma parte dessa história que deixou de ser mistério. O processo que leva da barreira intestinal ao cérebro começa dias antes de qualquer sintoma, e deixa rastro no metabolismo antes de deixar rastro no estômago.

Uma amostra de urina mostra dezenas de moléculas que contam se a barreira intestinal está sofrendo, se a inflamação está subindo, se a recuperação está acontecendo ou não. É o que a metabolômica lê. E é o que a gente faz na Veltron, cruzando esse exame com o teste de lactato e com o vídeo do movimento, porque o intestino que falha aparece, semanas depois, como a subida que não sai ou a decisão que não deveria ter sido tomada.

Talvez o próximo grande salto do ciclismo não seja mais watts. Seja saber, todo dia, o que o intestino está dizendo ao cérebro.

Sinais do Corpo é uma série sobre o que o seu corpo mostra, o que a ciência explica e o que você pode testar sozinho.