Recentemente, participei do Trident, competição organizada pelos guarda-vidas do Corpo de Bombeiros Militar de Alagoas, em Maceió. A programação reuniu diferentes desafios de resistência. A segunda prova foi uma travessia de 1.500 metros. Na quarta prova, disputamos um aquathlon com cinco quilômetros de corrida e 1.500 metros de natação, distribuídos em segmentos sucessivos: 500 metros de corrida na abertura, trechos de 300 metros de natação intercalados com voltas de mil metros de corrida e, ao final, mais 500 metros correndo. No sábado, a terceira etapa incluiu ainda uma corrida de dez quilômetros.
Além da exigência acumulada pelas diferentes provas, um aspecto chamou particularmente a minha atenção durante o aquathlon: todos os atletas realizaram os trechos de corrida sem retirar a touca de silicone utilizada na natação.
A prova aconteceu em maio, em Maceió, sob temperaturas elevadas. Nesse ambiente, correr com uma touca impermeável, justa e sem ventilação levanta uma questão fisiológica relevante: até que ponto esse equipamento, necessário para identificação e segurança durante a natação, pode contribuir para aumentar o desconforto e a sobrecarga térmica quando o atleta retorna ao asfalto?
O organismo também compete contra o calor
Durante o exercício, apenas uma parte da energia produzida pelos músculos é convertida em movimento. Grande parcela transforma-se em calor. Quanto maior a intensidade, maior tende a ser a taxa de produção interna de calor.
Para evitar que a temperatura corporal suba continuamente, o organismo precisa transferir esse calor para o ambiente. Isso ocorre por diferentes mecanismos, especialmente pela evaporação do suor, mas também por convecção, condução e radiação.
Em ambientes quentes e úmidos, como frequentemente ocorre em Maceió, esse processo torna-se mais difícil. Quando a umidade está elevada, o suor pode permanecer sobre a pele ou escorrer sem evaporar adequadamente. E é a evaporação, não simplesmente a produção de suor, que efetivamente retira calor do corpo.
A cabeça não é uma região “especial” que responda pela maior parte da perda térmica corporal. A dissipação de calor depende sobretudo da área de pele exposta e das condições ambientais. Entretanto, cobrir o couro cabeludo com uma touca de silicone reduz localmente a ventilação e a evaporação do suor. Durante a corrida, quando a touca já não exerce função hidrodinâmica, essa cobertura pode aumentar a sensação de calor e acrescentar uma barreira desnecessária à termorregulação.
Não significa que a touca, isoladamente, provocará hipertermia. Significa que ela pode somar mais um fator de estresse em uma situação na qual o organismo já produz muito calor e encontra dificuldades para dissipá-lo.
Da água relativamente fria para a corrida quente
O aquathlon apresenta uma transição térmica peculiar. Na natação, a água favorece uma transferência de calor diferente daquela encontrada no ambiente terrestre. Ao sair do mar e iniciar imediatamente a corrida, o atleta passa a enfrentar a radiação solar, o calor irradiado pelo piso, a umidade do ar e a produção metabólica elevada.
Além disso, a sensação térmica experimentada dentro da água pode mascarar inicialmente o aquecimento produzido pelo exercício. Ao chegar à corrida, o organismo precisa aumentar rapidamente o fluxo sanguíneo para a pele e intensificar a sudorese.
Se a cabeça permanece coberta por uma touca impermeável, a água retida e o suor não garantem necessariamente um resfriamento eficiente. Para resfriar, essa água precisa evaporar ou estar em contato com um meio mais frio capaz de receber calor. Sob a touca, a evaporação fica bastante limitada.
Por que a frequência cardíaca aumenta mesmo sem aumento do ritmo
À medida que a temperatura corporal se eleva, o organismo direciona mais sangue para a pele com a finalidade de dissipar calor. Simultaneamente, a sudorese provoca redução progressiva do volume plasmático quando a reposição de líquidos não acompanha as perdas.
Com menor volume de sangue retornando ao coração, o volume ejetado a cada batimento pode diminuir. Para preservar o débito cardíaco, a frequência cardíaca aumenta. Esse fenômeno integra aquilo que denominamos deriva cardiovascular.
Por isso, durante uma corrida realizada sob forte estresse térmico, a frequência cardíaca pode continuar subindo mesmo quando o atleta mantém a mesma velocidade, ou quando já está correndo mais lentamente. Esse aumento não representa necessariamente maior desempenho ou maior potência metabólica externa. Muitas vezes, revela o custo adicional de manter a temperatura corporal e a circulação diante do calor e da desidratação.
Essa é uma das razões pelas quais critico o uso isolado da frequência cardíaca para controlar a intensidade em provas de resistência. No calor, o mesmo valor de frequência cardíaca pode corresponder a uma velocidade muito menor do que aquela observada em condições ambientais amenas.
O custo metabólico da hipertermia
O aumento da temperatura corporal não afeta apenas o conforto. Ele interfere diretamente na capacidade de manter o exercício. Entre as suas principais consequências estão:
- aumento da frequência cardíaca e da sobrecarga cardiovascular;
- maior percepção subjetiva de esforço;
- redistribuição do fluxo sanguíneo entre músculos e pele;
- aceleração da utilização de carboidratos;
- redução progressiva da potência e da velocidade sustentáveis;
- alterações na coordenação motora, na atenção e na tomada de decisão;
- maior risco de exaustão pelo calor e, em situações graves, de golpe de calor por esforço.
No aquathlon, esses efeitos podem ser ampliados pela alternância entre modalidades. Uma intensidade excessiva na natação aumenta a produção metabólica de calor; uma corrida realizada imediatamente depois acrescenta nova demanda; e a repetição desse ciclo reduz as oportunidades de recuperação. Assim como ocorre no triatlo, cada trecho modifica as condições fisiológicas nas quais o trecho seguinte será realizado.
Um pequeno gesto com possível relevância prática
Retirar a touca imediatamente ao sair da água não resolverá, por si só, o desafio térmico de uma competição em Maceió. Ainda assim, é uma medida simples, de baixo custo e fisiologicamente coerente quando o regulamento e o sistema de identificação dos atletas permitirem.
A organização pode estabelecer uma área segura para o descarte ou armazenamento da touca, evitando que os atletas precisem carregá-la ou jogá-la no percurso. Outra possibilidade é disponibilizar recipientes numerados na transição, preservar a identificação por meio do número de peito e orientar previamente os competidores.
Também devem ser considerados: horários de largada com menor carga térmica; avaliação conjunta de temperatura e umidade; pontos adequados de hidratação e resfriamento; água para aplicação sobre cabeça, face e pescoço; equipes capacitadas para reconhecer rapidamente alterações neurológicas e sinais de doença provocada pelo calor; e adaptação do regulamento quando as condições ambientais aumentarem o risco.
Se a touca precisar ser mantida por razões de segurança em cada retorno à água, o formato da transição merece ser revisto. Pode-se permitir que o atleta retire a touca durante a corrida e a recoloque antes de entrar novamente no mar, desde que isso não comprometa a sua identificação.
Uma oportunidade para produzir conhecimento
A observação realizada no Trident também abre uma possibilidade concreta de investigação científica. Em edições futuras, poderíamos comparar aquathlons realizados com diferentes estratégias de uso da touca e monitorar temperatura da pele, temperatura central, frequência cardíaca, percepção térmica, percepção de esforço, perda de massa corporal, velocidade de corrida e concentração de lactato. Também seria possível utilizar câmeras e visão computacional para determinar automaticamente velocidade, padrão de deslocamento, tempo de transição e queda de desempenho a cada volta.
O objetivo não seria presumir que a touca causa hipertermia, mas quantificar se a sua permanência durante a corrida modifica a sensação térmica, a resposta fisiológica ou o desempenho em ambientes quentes e úmidos.
A ciência frequentemente começa assim: pela capacidade de observar aquilo que, por ser habitual, deixou de ser questionado. Todos correram de touca porque aquele procedimento parecia natural dentro da dinâmica da competição. Entretanto, a touca pertence à natação. Quando o atleta chega ao asfalto, especialmente sob o calor de Maceió, a sua permanência precisa deixar de ser apenas um hábito e tornar-se uma decisão fisiológica, esportiva e de segurança.
Este texto conversa com No calor, o seu limiar desce, sobre o que o calor faz com a intensidade sustentável. Sinais do Corpo é uma série sobre o que o seu corpo mostra, o que a ciência explica e o que você pode testar sozinho.