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Sinais do Corpo · Ensaio

Quando o favorito desaparece: a incerteza como essência do esporte

A queda de Pogačar tirou da Vuelta o seu atleta mais dominante. Nenhum limiar mudou, nenhum VO2máx subiu. Mudou uma variável que a fisiologia não mede sozinha: a possibilidade.

Por Pedro Balikian Jr.·07 de setembro de 2026·8 min de leitura
Quando o favorito desaparece: a incerteza como essência do esporte

A saída de Tadej Pogačar da Vuelta, provocada por uma queda na oitava etapa, produziu algo que nenhum diretor esportivo poderia planejar. Perdemos o grande favorito da competição. E, paradoxalmente, talvez tenhamos recuperado a própria competição.

Antes mesmo da largada, parecia existir uma espécie de consenso silencioso. Não se discutia quem poderia vencer. Discutia-se quem seria o segundo, quem completaria o pódio, quem conseguiria perder menos tempo. A vitória de Pogačar era tratada não como uma possibilidade, mas quase como uma condição inicial da prova. Ele vestiu a camisa vermelha desde o primeiro dia e, quando abandonou, tinha 3min50s sobre Enric Mas.

Quando o dominante organiza os outros

Quando um atleta se torna excessivamente dominante, ele não vence apenas os adversários. Ele passa a organizar o comportamento deles.

O pelotão começa a correr em função dele. Diretores elaboram estratégias considerando a sua superioridade. Atletas recalibram objetivos. Um segundo lugar passa a representar sucesso. Um terceiro lugar torna-se extraordinário. Ataques que poderiam acontecer deixam de acontecer porque existe uma pergunta silenciosa: para quê?

É nesse momento que a superioridade física começa a exercer também um domínio psicológico sobre a competição. Pogačar não precisava atacar para influenciar a corrida. A sua presença já era uma variável competitiva. Talvez essa seja a forma mais extraordinária de dominância esportiva: quando um atleta se torna tão forte que começa a vencer batalhas antes mesmo de elas serem disputadas.

Então ele caiu

E, em poucos quilômetros, nenhuma capacidade fisiológica dos demais atletas havia mudado. Os valores de potência continuavam os mesmos. Os limiares metabólicos eram os mesmos. O VO2máx não aumentou. A capacidade de recuperação não se modificou. Os anos de treinamento acumulados continuavam exatamente iguais.

Mas uma variável fundamental havia mudado: a possibilidade de vencer.

De repente, alguém que acordara naquela manhã pensando em defender uma posição podia começar a pensar em ganhar a Vuelta. Um jovem que deveria trabalhar para o seu líder podia olhar para uma fuga e enxergar uma oportunidade. Um diretor esportivo podia autorizar um ataque que, na presença do grande favorito, pareceria suicida.

O impossível havia se tornado improvável. E entre o impossível e o improvável existe um universo inteiro chamado competição.

O que aconteceu depois

Passamos a observar vencedores diferentes. Fugas ganharam significado. Ataques começaram mais cedo. Atletas jovens passaram a ocupar a frente do pelotão sem pedir licença à hierarquia.

Enric Mas deixou de ser candidato ao segundo lugar e passou a correr como líder: na décima segunda etapa, na subida de Calar Alto, largou Primož Roglič e ampliou a vantagem para 1min45s. Roglič, do outro extremo da experiência competitiva, já não é o jovem que precisa provar que pertence ao grupo dos melhores. É o veterano diante da possibilidade de uma quinta Vuelta, que deixou de ser uma abstração estatística e voltou a ser um objetivo possível.

E, naquela mesma etapa, venceu um jovem esloveno. Jakob Omrzel, 20 anos, cinco meses e treze dias, em sua primeira grande volta, tornou-se o esloveno mais jovem da história a vencer uma etapa de Grand Tour. O recorde anterior era de Pogačar, aos 20 anos e onze meses, na Vuelta de 2019. Da mesma pequena nação que produziu Pogačar e Roglič, aparece uma nova geração disposta não apenas a assistir à história, mas a tentar escrevê-la.

Dentro do mesmo pelotão, a ausência de um único atleta libertou duas forças aparentemente opostas: a ambição de quem está começando e a esperança de quem ainda não terminou.

O que a curva não mostra

Aqui esta Vuelta toca no centro do que eu estudo há trinta anos.

Costumamos medir potência, velocidade, consumo de oxigênio, lactato, frequência cardíaca, composição corporal, eficiência biomecânica e dezenas de outras variáveis. Todas são fundamentais. É com elas que eu trabalho desde 1994. Mas existe uma dimensão do desempenho que dificilmente aparece numa curva fisiológica: o quanto um atleta acredita que determinada ação ainda pode resultar em vitória.

Essa percepção modifica decisões. E decisões modificam provas.

Não é uma ideia nova para mim. Em 2006 publiquei, com colegas, uma proposta de teste incremental baseado na percepção subjetiva de esforço, exatamente porque o que o atleta percebe e o que o sangue mostra são medidas diferentes do mesmo corpo, e a distância entre as duas é informação. Um atleta que acredita que pode vencer aceita atacar mais cedo. Tolera permanecer alguns segundos a mais acima de determinada intensidade. Assume riscos táticos diferentes. Responde a movimentos que antes deixaria passar. Um diretor esportivo também muda: deixa de administrar perdas e começa a construir possibilidades.

O esporte, portanto, não é a soma das capacidades individuais dos competidores. É um sistema dinâmico no qual cada atleta modifica o comportamento dos demais. Quando Pogačar caiu, retirou-se do sistema a principal força gravitacional, e o pelotão se reorganizou. Atletas que orbitavam em torno de um favorito passaram a construir as próprias trajetórias.

A contradição do espetáculo

Queremos assistir aos melhores atletas do mundo. Queremos ver limites humanos sendo ultrapassados. Mas o espetáculo esportivo precisa também de incerteza.

Se soubéssemos com certeza quem venceria, ainda poderíamos admirar a performance, mas estaríamos assistindo a uma demonstração, não a uma disputa. A competição nasce da diferença entre aquilo que esperamos que aconteça e aquilo que ainda pode acontecer.

É por isso que acompanhamos uma fuga aparentemente impossível. É por isso que continuamos olhando quando faltam cinco quilômetros. É por isso que um jovem desconhecido entrando sozinho na reta final produz uma emoção que nenhuma previsão estatística reproduz.

O experimento involuntário

A queda de Pogačar foi uma perda esportiva. Ninguém deseja que uma competição seja modificada por um acidente, muito menos pela lesão de um atleta. Mas o que aconteceu depois constitui um extraordinário experimento involuntário sobre a natureza da competição.

O maior protagonista desapareceu. E, quando desapareceu, descobrimos que havia muitos outros esperando a oportunidade de acreditar que também podiam ser protagonistas.

A excelência individual produz admiração. A rivalidade produz tensão. Mas é a incerteza que produz competição.

E quando ninguém sabe quem vencerá amanhã, o esporte recupera uma das suas características mais humanas: a capacidade de nos fazer acreditar que alguma coisa extraordinária ainda pode acontecer.

Sinais do Corpo é uma série sobre o que o seu corpo mostra, o que a ciência explica e o que você pode testar sozinho. Este texto é um ensaio: a parte da série em que a ciência para de medir por um momento e olha para o que ainda não sabe medir.