Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
Ao observar a Vuelta e perceber a pequena representação de atletas negros no pelotão, poderíamos simplesmente perguntar: por que existem tão poucos ciclistas negros no mais alto nível do ciclismo mundial?
Mas essa pergunta começa tarde demais. Talvez devêssemos perguntar: quantas crianças negras tiveram condições reais de tentar se tornar ciclistas?
A mudança parece pequena, mas altera completamente a discussão. Se começarmos a análise no pelotão profissional, estaremos observando o último estágio de um processo de seleção que começou muitos anos antes. Antes de existir o ciclista profissional, existiu uma criança. E antes de descobrirmos se aquela criança possuía talento, alguém precisou lhe proporcionar acesso: a uma bicicleta, a um lugar seguro para pedalar, a treinamento, a competições, a manutenção, a equipamentos, a uma equipe, a oportunidades. E, progressivamente, a uma estrutura cada vez mais cara.
O paradoxo tecnológico
O ciclismo talvez seja uma das modalidades que melhor representam o encontro entre homem e tecnologia. Hoje discutimos obsessivamente aerodinâmica, peso, rigidez, resistência ao rolamento, capacetes, rodas, pneus, transmissões eletrônicas, sensores, potência, posicionamento biomecânico e ganhos marginais.
Isso é extraordinário. Como cientista do esporte, seria incoerente defender menos tecnologia. Quero exatamente o contrário: mais ciência, mais sensores, mais biomecânica, mais fisiologia, mais inteligência artificial, mais capacidade de compreender o atleta. Mas existe uma condição: a tecnologia precisa aproximar pessoas do esporte, e não afastá-las dele.
E aí surge o paradoxo. Quanto mais sofisticado se torna o ciclismo, maior pode se tornar a barreira econômica para entrar nele. Uma bicicleta melhor custa mais. Depois aparecem as rodas, o medidor de potência, o ciclocomputador, as sapatilhas, o capacete, a roupa, a manutenção, os pneus, as viagens, as inscrições, a alimentação, a recuperação, a avaliação fisiológica. Aquilo que começou com uma bicicleta se transforma num ecossistema de milhares de euros.
Não há problema algum em existir tecnologia de ponta. O problema aparece quando começamos a confundir capacidade de comprar tecnologia com capacidade de produzir desempenho.
Talvez o melhor ciclista ainda não tenha sido descoberto
Existe uma ideia que deveríamos ter coragem de considerar. Talvez alguns dos indivíduos mais talentosos para o ciclismo existentes no planeta jamais tenham participado de uma competição. Não perderam uma corrida. Não foram derrotados numa seleção. Não apresentaram potência insuficiente. Nunca foram avaliados.
Essa distinção é fundamental. O esporte de alto rendimento costuma apresentar os seus campeões como resultado de uma seleção dos melhores. Mas nenhum sistema esportivo seleciona os melhores seres humanos disponíveis. Seleciona os melhores entre aqueles que conseguiram entrar no sistema. E, quando o custo de entrada é elevado, essa diferença torna-se enorme.
Kigali mostrou alguma coisa
Em 2025, o Campeonato Mundial de Ciclismo de Estrada foi realizado em Kigali, em Ruanda. Foi a primeira vez, em quase um século de história da competição, que o Mundial aconteceu no continente africano.
E os números são interessantes. No Mundial anterior, em Zurique, 15 países africanos haviam participado. Em Kigali foram 36, de um total de 108 nações inscritas. A África respondeu por um terço dos países presentes, num Mundial com 769 ciclistas, o maior número de uma edição fora da Europa.
Não significa que todas as barreiras desapareceram, muito menos que o problema da representatividade esteja resolvido. Mas demonstra uma coisa importante: quando aproximamos a oportunidade, aparecem atletas.
Parece óbvio. Não é. Porque durante décadas podemos observar a baixa representação de determinada população e interpretar aquilo como ausência de interesse, de tradição ou de talento, quando estamos observando, principalmente, ausência de oportunidade.
Representatividade não termina com um Mundial na África
Por isso realizar o Mundial em Ruanda foi histórico. Mas agora começa a parte difícil. Colocar o ciclismo mundial durante uma semana na África é diferente de colocar bicicletas nas mãos de crianças africanas durante vinte anos. O primeiro produz imagens extraordinárias. O segundo produz gerações. Precisamos de ambos.
O verdadeiro legado de Kigali não poderá ser medido pelo público presente, pela audiência ou pelo número de países. Terá de ser observado daqui a dez ou quinze anos. Quantos jovens começaram a pedalar? Quantos clubes surgiram? Quantos treinadores foram formados? Quantas bicicletas permaneceram disponíveis? Quantos atletas africanos entraram nas equipes de desenvolvimento? Quantos chegaram ao WorldTour? Quantos largaram no Giro, no Tour, na Vuelta?
A própria UCI reconheceu essa dimensão ao associar Kigali a programas de desenvolvimento com a federação ruandesa, envolvendo formação, identificação de talentos e iniciativas de base. Esse talvez seja o legado que realmente importa.
A questão é também brasileira
A questão não é exclusivamente africana. É socioeconômica. É racial. É geográfica. É também brasileira.
Quantas crianças das nossas periferias conseguem praticar futebol? Milhões. Quantas conseguem correr? Milhões. Quantas conseguem praticar ciclismo competitivo? A diferença é brutal.
E isso deveria incomodar profundamente quem trabalha com esporte. Porque sabemos que capacidade aeróbia, força, coordenação, coragem, inteligência tática e capacidade de sofrimento não pertencem a determinada classe econômica. O talento humano está distribuído pela população. A oportunidade, não.
Inverter a lógica da tecnologia
Talvez a próxima revolução tecnológica do ciclismo não deva ser produzir uma bicicleta ainda mais rápida. Talvez seja produzir um sistema capaz de descobrir talentos sem exigir que eles sejam ricos primeiro.
Imagine centros comunitários onde as bicicletas pertencem ao programa, e não às crianças. Uma mesma bicicleta atendendo sucessivas gerações. Sensores compartilhados. Avaliações realizadas por smartphone. Visão computacional analisando biomecânica sem laboratórios milionários. Protocolos simples identificando capacidade fisiológica. Algoritmos procurando talento independentemente da renda. Equipamentos de equipes profissionais destinados depois às categorias de formação. Universidades trabalhando junto às comunidades. Clubes profissionais mantendo centros de identificação de talentos em regiões socialmente vulneráveis.
Foi essa a pergunta que me levou à estrada em 1994, no mestrado: dá para encontrar o limiar de um ciclista fora do laboratório, com um teste de campo? Dava. Trinta anos depois, com um celular, um lactímetro e um protocolo bem desenhado, dá para medir a fisiologia de qualquer criança em qualquer lugar. A tecnologia deixaria de funcionar apenas como amplificadora de performance. Passaria a funcionar como democratizadora de oportunidade.
Talvez estejamos procurando watts no lugar errado
O ciclismo moderno tornou-se extraordinariamente competente em procurar pequenas vantagens. Gastamos milhões tentando encontrar um watt. Alguns gramas. Um coeficiente aerodinâmico ligeiramente menor. Uma posição alguns milímetros melhor. Um pneu alguns segundos mais rápido. Tudo isso importa quando se disputa o Tour de France.
Mas talvez exista uma incoerência gigantesca nisso. Enquanto procuramos obsessivamente um watt adicional em atletas que já encontramos, podemos estar deixando passar seres humanos capazes de produzir dezenas de watts a mais simplesmente porque nunca os procuramos.
Essa talvez seja a maior ineficiência do sistema. Não aerodinâmica. Não metabólica. Não biomecânica. Social.
De volta à Vuelta
Olhemos outra vez para aquele pelotão. Quando enxergamos pouca diversidade, não deveríamos apenas contar quantos atletas negros estão presentes. Deveríamos imaginar todos os que estão ausentes. Não sabemos os seus nomes. Não sabemos o seu VO2máx. Não sabemos as suas potências. Não sabemos se seriam escaladores, velocistas ou especialistas em contrarrelógio. Nunca saberemos quantos poderiam ter sido extraordinários, porque muitos jamais tiveram a primeira oportunidade.
E talvez essa seja a reflexão mais incômoda de todas: o ciclismo não pode afirmar que encontrou os melhores do mundo enquanto uma parcela enorme do mundo sequer teve oportunidade de tentar.
O Mundial de Kigali abriu uma porta. Agora precisamos impedir que ela se feche. Porque diversidade não deveria ser construída na última etapa do processo. Ela precisa começar na primeira bicicleta, na primeira escola, no primeiro clube, na primeira oportunidade.
Talvez o futuro mais revolucionário do ciclismo não seja uma bicicleta de 6,8 quilos, uma roda mais aerodinâmica ou uma transmissão ainda mais eficiente. Talvez seja algo muito mais simples: uma criança que hoje está fora do ciclismo receber uma bicicleta e descobrir que poderia ter sido extraordinária.
Quando isso acontecer em milhares de lugares diferentes, talvez finalmente possamos olhar para o pelotão de uma grande volta e dizer: não estamos vendo apenas os que conseguiram pagar o caminho até aqui. Estamos começando a ver aquilo que o mundo realmente tem de melhor.
Sinais do Corpo é uma série sobre o que o seu corpo mostra, o que a ciência explica e o que você pode testar sozinho. Este texto é um ensaio.
